´´ Os Manuéis do Manuel ``



     

       -O que de facto mais me fascina neste conto foi a imaginação de recriar personagens cujas faixas etárias são relembradas como um déjà-vu:
         A descrição, detalhes, pensamentos, dificuldades, desgostos, saudosismo, afeição, compreensão, amor, entre muitos outros atributos deste conto, prendem o leitor de tal forma a que as suas emoções ou pensamentos surjam e param no tempo para observar ou concluir algo delas mesmas porque o ciclo da vida não espera... por ninguém:
"Não sei quando cheguei a velho. Esta velhice parece ter chegado, na manhã a seguir à noite em que adormeci, sentindo-me eterno"- Eu como leitora faço algumas interpretações:
       - A escritora faz uma análise auto-biográfica - A idade do Manuel 80, já com muita quilometragem, vulnerável, frágil, esquecido, com pouca energia, não admite as suas fraquezas ou desânimos e perde-se nos seus pensamentos... pensamentos esses que falam dele próprio: de uma vida recheada de vários "Manueis", o Manuel criança (como por vezes adoraríamos voltar a ser crianças) - que chora e ri e encontra um mundo de fantasia ao seu redor mas que não leva muito tempo para encontrar o Manuel rapaz - o travesso, rebelde mas perspicaz rapaz que nos transmite a alegria de viver sob todas as vicissitudes...e olha que na década de 30 perdiam facilmente a criança que havia neles pela  fome, guerra que os obrigava a tomar outras medidas sem em simultâneo perderem a rebeldia. o Manuel 20 - a adolescência a fase mais e menos complicada da vida: mais porque estamos no ponto de viragem para uma nova etapa crescer e esta acarreta responsabilidade, outra perspectiva de vida, mas também o amor. O Manuel 40, um homem mais maduro que procura formar uma família e proporcionar aos seus futuros filhos uma vida independente com algum património, por isso tanto se esforça para trabalhar e a responsabilidade, desgostos  e encargos são cada vez maiores. Chegando á idade do Manuel de 80 as sábias palavras, na maioria dos casos não são compreendidas e esta é uma realidade do nosso século... infelizmente e faz com que aborde uma outra análise que me apraz dizer, apela sobretudo a atenção, da nossa falta de tempo para um momento de reflexão:
        Todos nós construimos estereótipos, na maioria das vezes, o papá ou a mamã e levamos muito tempo, mas muito tempo mesmo a aprender que eles não são eternos, que o que foram no passado, não são mais e em simultâneo nós crescemos mas eles... eles envelheceram... A idade tudo traz e tudo leva, a mente falha, o físico não obedece mais à razão, os maus dias são constantes e os sonhos desaparecem, ficam pelo caminho porque o que um dia ganharam, facilmente foram perdendo e dando-se conta disto mesmo num estado de lucidez, nós que apenas observamos na maioria dos casos não compreendemos até chegar a essa mesma etapa, não compreendemos que eles estão cansados de cuidar dos  outros, de serem o exemplo, que ficam irritados, que a sua saúde desvaneceu e todos os seus órgãos também aos poucos.. vão morrendo, perdem familiares, amigos, entes queridos: a vida acaba por não ter qualquer sentido e a pergunta na maioria das vezes é: que faço eu aqui? O problema é que não estamos preparados para assistir ao decréscimo de idade e não nos damos conta na maior parte do tempo que está a chegar à altura de sermos nós a cuidar e a mimar, que as dificuldades vão aumentar e nós que estamos tão focalizados na nossa própria vida "embirramos" quando eles ficam irritados com uma ou outra coisita que façam, mas no fundo, trata-se de uma chantagem emocional para chamar a atenção, que até já foi dado o sinal, mas não nos apercebemos porque naquele momento o estereótipo que criamos está simplesmente a deixar de funcionar... começamos a sentir a perda... mas num futuro não muito longínquo, será a nossa vez e oxalá que haja uma Maria Luiza que cuide do Manuel de 80 porque não são os velhinhos que ficam caducos, são os filhos que relutam em aceitar o ciclo da vida e um dia... vão partir.
        Nanda peço desculpa por me ter expressado tão longamente sobre a temática que lançou e aborda uma realidade: os vários Manuéis do Manuel, o que deveras me deu imenso prazer ler. O que senti, foi o que acabei de mencionar nesta minha abordagem e como leitora lhe informo que me fez relembrar algumas coisas do meu passado e presente e causou-me muito impacto, pois as minhas emoções estiveram muito mas muito à flor da pele e não esconderam várias lágrimas à medida que os meus olhos liam este conto.


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