O teu esforço



Num tempo em que eu ainda não percebia que todo o Homem tinha nascido escravo de tudo ou de alguém, crescia segura do teu apoio, sem saber que eu inconscientemente também te estava a escravizar.
        Eu ainda não sabia analisar todas as regras do jogo a que a vida nos sujeitava.  Perdia-me a olhar as tuas mãos gastas, no pano que corria e se entregava ao ponto combinado entre a linha e a agulha da máquina de costura, sem ter consciência que essas mãos tinham histórias mais importantes que toda a História que eu aprendia na escola. 
Tu e tantas mulheres como tu eram os personagens principais que faziam a História do Mundo. Entregavas-te livremente à escravidão para que eu pudesse entregar-me à fantasia e tivesse o direito de sonhar. Permitiste a minha ingenuidade para que fosse fértil a minha infância.
         Eu não entendia que o duplo sentido que intentavas dar aos teus ditados populares e aos teus conselhos, eram um desafio e um incentivo à leitura da meninice que nunca tiveras.  Naquela hora aparentemente calma, em que eu pronta para ir dormir, lançava um último olhar à tua figura sentada, preparada para enfrentar um longo e silencioso serão, não sabia que ultrapassaras todos os limites  das tarefas  que alguém  pode suportar. Durante a noite, acordava levemente com o som da máquina de costura e adormecia de novo, tranquila com a tua imagem no andar de baixo.
            Conhecia o movimento das tuas pernas inchadas pelo cansaço impulsionando os pés a empurrarem o pedal da máquina que por sua vez através da correia de cabedal dava vida à roda que obrigava a agulha a gemer no tecido. Sabia que sentirias por pouco tempo o descanso da tua cama e que serias a primeira a interromper o silêncio da casa, embrulhada no teu xaile madrugador. 
 Hoje eu sei que viraste muitas vezes a tua existência do avesso para que eu me atrevesse a crescer. Nem sequer reparei na tua idade avançada, quando mais tarde me pedias:
           - Enfia a linha na agulha. Já me cansa a vista...
Eu, curiosa como sempre, quando apanhava a máquina a descansar, mal chegando com os pés aos pedais tentava experimentar a sensação de como seria estar no teu lugar. 
Com toda a paciência, ensinaste-me e eu aprendi, mas nunca o soube fazer com aquela disciplina a que tu te sujeitavas.

Fernanda R-Mesquita



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