O Pandemónio





O Pandemónio                          

Leitura de

Fernanda R. Mesquita



`` Sou como um assassino que não mata e um ladrão que não rouba... Só eu sei o que passei e o que tive que me humilhar para poder estar vivo hoje, contando como as coisas aconteceram. ´´
( Zeca Fonseca )


               Este livro viajou do Brasil até aqui a Edmonton, Canadá. Oferta do autor do livro; Zeca Fonseca. Quando abri este livro `` O Pandemónio´´, senti de imediato que a leitura me obrigaria a conviver com certas circunstâncias previstas e imprevistas de um mortal que ultrapassa os limites comuns do território humano. Ele é como um prisioneiro louco sempre pronto a derrubar as grades da sociedade procurando a liberdade  nas várias  celas do alcóol e da droga, que o recebem de portas abertas   e com ardilosas algemas. O livro, escrito na primeira pessoa, pela inspiração de Zeca leva-nos a um diário íntimo,  onde o foco central são os constantes desafios à resistência física e mental. Por vezes, atinge um tão grande estado de infelicidade que o leva a querer tornar eternas as necessidades mais íntimas e básicas do seu corpo, como se com isso impedisse o suícido da sua continuidade. Afinal, a sua vida é compelida por constantes hábitos suicidas na esperança de ressuscitar como outro indivíduo. Sim, porque o que pode levar um ser humano a desgastar os seus dias de vida, se não a esperança de encontrar coerência na incoerência do modelo formado pela sociedade humana, aparentemente lúcida.  O autor livrou-se de limites para se libertar em expressões, provavelmente consideradas por muitos como exageradas e menos agradáveis de se lerem. Mas o que será mais desagradável; a verdade contada apenas como verdade ou as mentiras com que nos iludimos diariamente?  É como se essas expressões  tentassem trazer ruído às mais silenciosas perturbações do herói da história; um jovem jornalista drogado e  alcoólico que parece querer condensar a sua vida numa obra, onde  a atração pelo sexo feminino se realça como pseuda-salvadora, oferecendo-lhe o sexo quase como ofício, levando-o  a possuir quase todas as mulheres, quem sabe, na esperança de não ser possuído pela sociedade. Talvez seja um livro duro de ler mas não mais duro do que acordar todos os dias ligado a um mundo que gira em sentido contrário à paz e à dignidade humana.  A sensação que me dominou foi que este seu livro foi escrito ininterruptamente, de tão forte que é a sua mensagem e de tal modo que nos obriga a uma leitura  de espiríto atento e curioso.
Zeca, já lhe disse  e torno a afirmar: você teve que ter muita coragem para escrever deste modo.
  Por entre toda essa liberdade de expressão encontrei muitas  passagens que me fizeram parar para pensar. Deixo uma delas:

´´ Existe um subconsciente coletivo em uma subcidade: um Rio de Janeiro submerso, ora em lama, ora em sangue; cada bairro obriga seu submundo próprio, uma espécie de filial de violência generalizada que tem como matriz a vitalícia falta de educação. Caminhamos para uma guerra civil estadual; até os cegos podem ver. Pessoas morrem todos os dias nesta guerra não declarada.`` ( Zeca Fonseca ) 

Fernanda R-Mesquita



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