Duetos com João Murty

Tempo de alma

Ai! Se eu pudesse parar o tempo e esculpir,
Esculpia esse teu sorriso de lábios rosados,
Emoldurado nesse olhar afogueado de fugir
De cabelos soltos de tons ruivos acobreados.


Ai! O porquê de tanta incerteza se o tempo voa e não para,
Mas se chegar e não partir, é porque o prendi nos meus braços.
Então eu vou rir! Rir, porque o riso todos os males sara,
Teria de novo os teus beijos e o calor dos teus abraços.


E na memória uma história esvoaçando na ilusão.
Teria vida e fantasia, nos gemidos das noites quentes
Dos clamores e desalentos de um amor de perdição.


Ai! Quero reter o tempo e cerrar os olhos de desejo
Ouvir o murmúrio da tua boca sobre a minha boca
Num prazer e ensejo transportado nas asas de um beijo!

João Murty

Ai! O nosso tempo esfuma-se nesta distância fria
E eu vou morrendo triste, em desalento,
Restos mortais de uma flor que em melancolia
Se desfaz no ar ao sabor do tempo.

Que romântico delírio, que desengano
Quereres segurar o tempo, que sonho vão
Quando se podem contar os dias num ano
Em que eu sinto a tua mão na minha mão.

Um dia estarei velha desfiando o novelo
Do tempo que passou e não atendeu ao meu apelo.
Velhinha, sentada na porta olhando o horizonte distante,

Tentando ver-te a ti, também já velhinho, pois...
Ou será que o tempo dará tempo a nós dois
De vivermos, ainda jovens, este amor por um instante?




Fernanda R-Mesquita

***

Amnésia


Tu sabes e não falas, não dizes quem eu sou?
Vagueio como um cão que não tem dono,
Percorro o meu destino, sem saber para onde vou,
Como uma folha que erra, no vento do outono.


Sou um ente esquecido, uma amnésia da vida.
Nesta alma errante, para quem nada importa,
Apenas tenho silêncio na memória esquecida.
E a rua como morada. Uma parede nua, sem porta.


De tempo em tempos, vejo uma imagem nublada,
De vertigens de beijos sôfregos, de quem foi amado.
E uns olhos iluminados, na palidez de uma cara extasiada.


Sou mais um, a quem o assombro entrou na alma em pecado,
Que paga os amores mal-amados, querendo tudo sem dar nada,
Castrando na escuridão a chama desse desejo insaciado!

João Murty

Não evites certos lugares da tua memória...
Talvez eles transformem essa amnésia em fumaça
E permitam fluir lembranças onde a tua história
É muito mais do que essa mágoa que agora te despedaça.

O mundo não quer saber de tristeza!
Quanto mais quererá desgraças e pouco mais...
Existe um fulgor intenso na sua natureza
Em fazer-te cinza adorada entre os mortais.

È uma forma de se enaltecerem mostrando dó;
Improvisam frases, lamúrias por seres quase pó
Chorando falsamente sobre a tua face, quão falsos são!

Não queiras ser mais um nesta terra estéril, sem cores,
Onde em vida já te oferecem fúnebres flores...
Expõe a amnésia do mundo mas rejeita a sua compaixão!

Fernanda R-Mesquita
***

Lágrimas


No céu azul dos teus olhos, correm nuvens de tempestade.
Nascidas no coração em dor, sopradas pelo vento do momento.
Lágrimas, solidamente agrilhoadas aos ferros corroídos da saudade,
Tardam a apagar o fogo, que ateia a desilusão e incendeia o sentimento.


Lágrimas que correm sem cadência, no leito do rio da demência
Num percurso de escolhos, para além do nada, onde mora a eternidade.
Desaguam intempestivamente, no oceano insondável da existência,
Onde a vida tem danos, entre tantos enganos, na procura da felicidade.


Neste oceano das dores, afoga essas lágrimas filhas da vida e da morte
Segura o leme da tua nau, iça a vela da sabedoria e procura a tua sorte
Circunda a orbe cintilante, onde o norte é distante e o vento não tem tino!


No cimo da montanha do ocaso, condensa-se esse intangível desejo
Nos raios entrelaçados, onde brilham as lágrimas de procura e ensejo
Que mata a tristeza e sara a saudade, no renascer das cinzas do destino!
-
João Murty

Quantas vezes fui tomada por rítmicos soluços,
Trémulos queixumes da minha alma ressequida,
Lágrimas jorrando dos meus olhos tempestuosos fluxos
Molhando-me os lábios, refluindo à alma para lhe darem vida.

Quando me ponho a pensar no que tive que fazer,
Pelo impenetrável universo, o que tive que traçar
Para dos escolhos, alegres gestos e sorrisos colher
Para que as lágrimas, de alegria pudessem brilhar.

Desfolhei cada lágrima como se fosse uma flor;
Tive nas mãos a raiva, a solidão, a tristeza e a dor...
Como pudera eu ser porta de aço sem me arruinar?

 ´´ Pensando que a maldade é demente que se conduz
Num dúbio estado que quando encontrar a luz
Não causará mais lágrimas, nem mais razões para chorar! ``


Fernanda R-Mesquita
***

Amor naufragado

Nunca perto, sempre longe, sem domínio e sem cadência.
Navego na noite escura, sem estrelas, à luz das velas
Sem rumo nem orientação, sou um náufrago da tua demência
Perdido neste mar de sentimentos, sem portas e sem janelas.

Deste amor navegante que se perdeu no mar e naufragou
Por não encontrar um porto de abrigo, farol ou uma luz acesa.
Flutuando há deriva, não resistiu a tanto rombo e se afundou
Nos vis baixios do ciúme, contra os rochedos da incerteza.

Onde estavas quando precisei de ti? Perto, longe, distante do meu chamar.
Náufrago de ti, não escuto os passos, não sinto os teus braços, não te ouço falar
Já não sinto, nem vejo esse teu gesto sem jeito de te enroscares no meu peito!

Nunca perto, sempre longe e distante, naufrago neste mar de amor imperfeito
Onde os poemas morrem e as musas cantam os sentimentos que já senti
Guardo em mim um desejo, recordar o primeiro beijo e a última vez que te vi.

João Murty

Que pena, como são tantos os descaminhos, quem diria?
Triste olho o relógio, os ponteiros mexem-se mentindo
Para que eu não espere aquele que prometeu que viria
Para atear a última réstia de luz que se vai diluindo.

A incerteza é aquela que nasce na escuridão
Que envolve o rosto do outro, atraindo desamor
Pois a distância traça o caminho da solidão
Alimentando e fechando cada um na sua própria dor.

Se tu te sentes abandonado, então que direi eu?
Que dentro de mim enterro aquilo que por ti viveu;
Esse amor naufragado, que chamas de imperfeito, triste...

Os descaminhos de um amor apenas são um mistério
Porque nós, descuidadamente inocentes, não levamos a sério
Que um coração sozinho cansa-se de esperar... Desiste!


Fernanda R-Mesquita

***
Senhora do lago

Donde vieste tu senhora do lago, ardente, vibrante audaciosa?
Envolta nos mistérios das brumas, que esconderam tanta beleza
Que ilha de aromas e encantos te conservaram tão airosa
De que reino, de que historia, são as insígnias da tua nobreza.

De que tempos, de que séculos, te trouxeram a nós doce rainha
Embalada por harpas pressagias e pelo troar das trombetas
Que horas profundas, lentas e caladas, teve senhora minha
Que não ouvistes os cânticos sacros dos egrégios monges poetas.

Quem te prendeu nesse lago, de marés nostálgicas e de mágoas
Que neblinas de feitiçarias te deixaram no tempo adormecida?
Esquecida de ti, eremita de clausura, nesse sono Elfo sem vida.

Já não estás cativa. A doce magia da luz desprendeu-te das águas.
Decantas um casto sorriso, que rasga a bruma e no ar ascende.
Teus olhos de luz, irradiam a pureza do azul que o céu resplende.

João Murty

I

Alguém calou o eco da minha voz, deixou-o apagado,
Sufocando-o de lágrimas, frio, rude e indiferente...
Por um tempo vivi sem entusiasmo, como um ser cansado,
Convicta de que não voltaria a viver novamente.

De que tempos, de que linhagem eu descendo, não sei...
Sei que vivem dentro de mim as harpas da poesia, descritas
Em cada verso dos poetas, onde em tantas leituras me desnudei,
Renovando-me em cada cântico nas horas aflitas.

Aprendi que a felicidade nunca reina por inteiro
Não importa, antes de amar a minha dor, amarei primeiro
Os dias que me foram dados para viver e então,

Sem esquecer que a felicidade de saber sorrir é ter,
Diante da adversidade, a certeza de querer vencer
O lago de marés nostálgicas que nos atira à solidão.

Fernanda R.-Mesquita

II

Vivi por uns tempos num lago de marés de aflição
Irrequieta, insatisfeita contra os erros da humanidade...
Tentei emancipar-me do que me liga à tradição,
Soterrada no silêncio, procurando a verdade.

Lá em baixo, lutei contra mim mesma, sem entender,
A obrigatória obediência aos costumes, que destrói
A minha índole romântica que teima em não morrer,
Que me emotiva, me fascina e ao mesmo tempo tanto dói.

Que confuso tropel de sentimentos, que insano...
Entre a beleza da vida e o som crítico feroz humano,
Salvou-me do fanatismo moral, fez-me mulher completa;

Aceitar o meu íntimo, porque na verdade,
Entre a maior felicidade e a mais profunda infelicidade
Vive a natureza cantando os versos puros do poeta!


Fernanda R.-Mesquita

***

Mendigo da alma

Velho de olhar triste, pobre e vagabundo,
Tens por companheira a miséria dominante.
Viajante de alma e mendigo neste mundo
Que em delírio, beijas o pó, murmurante.

Onde os dias e as noites passam sem ter pressa
Onde nada é diferente e tudo te parece igual.
Até o dormir, no canto escuro de qualquer travessa
No chão de pedra, enganas o frio num leito de jornal.

Mora próximo a demência, que cultiva esse fadário
Nessa alma adormecida, em que a sorte é a morte
Que num ato de amor, termina esse Calvário!

Poemas escritos de luto, marcados por almas sem amor
Inspirados na desgraça, foram buscar a poesia ao teu sangue
De trajos negros te veneram, declamando um verso à tua dor.


João Murty

De que me servem versos escritos à minha dor...
São um inferno na minha alma, murmúrios ofensivos
Que irrompem em mim a sensação de ser inferior
Neste mundo indiferente, pleno de silêncios corrosivos.

Como declarar independência de ideais tão pouco nobres
Que desprezam a verdade e a tornam escrava de uma moral,
Que envenenam o corpo da estrutura humana e tornam pobres
Os direitos do homem comum, tornando-o tão desigual.

O Homem fez do mundo uma caixa quadrada...
Mas não terá a Terra uma forma arredondada,
Sem cantos moldados por uma apatia que o empobreceu?

O murmúrio sonso desses cânticos falsos são
Para amestrar o Homem-simples numa falsa ilusão
E assim pague, obediente, para viver na terra onde nasceu!


Fernanda R.-Mesquita

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