As imagens do teto do meu quarto

Muitas das noites em que me deitavam
antes dos adultos se deitarem,
eu não adormecia logo; entrava noutro Universo;
as tábuas do teto do meu quarto convidavam-me
a ficar de olhos abertos e pareciam estender-me a mão
para jogar jogos que eu não conhecia... e os lençóis gelavam.
A penumbra do quarto criava misteriosas figuras,
como uma aterradora sentença.
Eu escondia o olhar debaixo do cobertor,
esperando trémula e tensa
que aquelas criaturas pálidas, sombrias e sem cor
saíssem pela janela.
Esperava uns segundos...
espreitava com cautela,
via um estranho olhar,
um rápido movimento a tentar
prender-me em aterradores laços
que me paralisavam as pernas e os braços.
Noite após noite
meditava sobre o mundo controverso
daquelas sombras na escuridão
até que ganhei coragem e invadi os seus segredos...
Questionei estas imagens imateriais
mas ninguém respondeu...
Apenas um sorriso maior numa tábua qualquer
e uma sombra a esgueirar-se
sem me dizer se era homem ou mulher.
A pouco e pouco  fui descobrindo
que pela manhã, quando abria os olhos,
  não havia nada nem ninguém.
Teriam elas medo da luz do dia?

Reflecti e percebi que afinal
elas moravam no espírito da ilusão;
talvez como tantos outros medos...
Foi assim que fui vencendo,
as imagens do teto do meu quarto;
mandei-as partir... foram morrendo!

Fernanda R-Mesquita


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